quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Adoro-te


Basta um gesto. Basta um olhar. Basta uma palavra. Basta um sabor. Basta um toque. Basta um aviso. Basta um bilhete. Basta uma sirene. Basta um mar. Basta um saber. Basta um retrato. Basta um pássaro. Basta um iorgurte. Basta uma núvem. Basta uma expressão.
Basta um som.

Basta ouvir com todos os sentidos aquilo que todos os dias procuramos e não encontramos. Basta esperar. Basta ter o dom da paciência, o dom de saber que tarda, mas vem. Basta um ter noção de quem não tem noção. Basta olhar para trás e piscar o olho, como quem diz adeus por uma hora. Basta sorrir, fazer uma cova na bochecha e deliciar alguém. Basta ver por um instante aquilo que está debaixo dos nossos olhos. Basta andar na rua, como se fossemos parte integrante dela. Basta um olá. Basta um observar atento àquela janela. Basta um querer mais que bem querer. Basta um de repente e não mais que de repente. Basta tudo e não basta nada.
Incrusto-me no que me delimita, na esperança de fintar, um dia, tudo aquilo que me faz cair. Tudo o que me derruba, derruba-me porque eu deixo. Não porque se quer. Debaixo da minha camada fina e de aparente fragilidade, está a fortaleza de quem um dia sofreu por não controlar a emoção de se emocionar. Posso não ser nada, mas ao afirmá-lo, já sou alguma coisa. E dentro de alguma coisa, o tudo encontra-se a uns escassos metros de mim. Centímetros, se eu quiser. E funde-se comigo à velocidade do som.
Já quis ser muita coisa. Mudar o mundo, do iníco ao fim. Mas agora prefiro não ser nada. O mundo que me mude a mim.



Saber ouvir.

Saber estar.

Saber sentir.

Saber ignorar.


[Adoro-te]

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